Ponto de Vista: Educação para uma sociedade com inteligência artificial

Ponto de Vista: Educação para uma sociedade com inteligência artificial

por Renata Heining

16/09/2026

8 min de leitura
O uso da inteligência artificial na educação

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A inteligência artificial deixou de ser uma tecnologia restrita a laboratórios e centros de pesquisa. Hoje ela participa de atividades cotidianas: escreve textos, analisa dados, produz códigos, resume documentos, identifica padrões e até nos ajuda na tomada de decisões.

Dessa forma, cabe a nós perceber ou refletir que já faz um tempo que entramos em um momento de grande transformação. Estamos começando a conviver, efetivamente, com máquinas capazes de executar atividades que, até pouco tempo atrás, associávamos exclusivamente ao intelecto humano.

Nesse cenário, a relação entre inteligência artificial e educação ganha cada vez mais relevância, especialmente diante das mudanças na forma como aprendemos, trabalhamos e tomamos decisões.

Tecnologia sempre foi uma forma de ampliar capacidades humanas

Tecnologia sempre foi uma forma de ampliar capacidades humanas

Para compreender por que a inteligência artificial representa uma transformação tão importante, vale olhar para a própria história da ciência e da engenharia.

Em algum momento, milhares de anos atrás, seres humanos perceberam que a realidade poderia ser representada de maneira abstrata. A geometria permitiu a medição de terrenos. A matemática e suas fórmulas nos ajudaram a prever fenômenos. A física permitiu compreender as forças da natureza. E a engenharia transformou tais ideias abstratas em coisas concretas.

Vieram pontes, motores, aviões, satélites, foguetes e computadores.

Existe um padrão interessante nessa trajetória: a tecnologia sempre ampliou alguma capacidade humana.

O motor ampliou nossa força, o avião nos permitiu voar, e o computador ampliou enormemente nossa capacidade de cálculo.

Mas agora, pela primeira vez, estamos construindo algo diferente: uma máquina que pensa e é inteligente.

E por que isso é diferente?

Quando uma inteligência artificial conversa, escreve um poema, produz um código ou resolve um problema matemático, surge uma sensação diferente. Ela parece entender e agir de maneira muito semelhante à forma como nós agimos.

E isso nos leva a uma questão importante:

O que exatamente significa ser inteligente? E inteligência é a mesma coisa que consciência?

Se inteligência for a capacidade de resolver problemas, aprender com experiências, reconhecer padrões, usar linguagem ou planejar. Sim, pode-se dizer que a IA é inteligente. Ela, de fato, consegue fazer tudo isso.

Mas existe uma outra palavra que frequentemente confundimos com inteligência. A consciência. E talvez sejam coisas bem diferentes.

Uma máquina pode reconhecer a palavra “risco”, mas nunca precisou tomar uma decisão sob pressão. Pode analisar milhares de projetos de engenharia, mas nunca acompanhou uma obra em campo. Pode descrever com precisão como funciona uma negociação, mas nunca precisou conciliar interesses conflitantes em uma sala de reunião.

E esse ponto é fundamental.

Existe uma diferença entre descrever uma situação e ter experiência prática sobre ela. A inteligência artificial consegue processar enormes volumes de informação, identificar padrões e produzir respostas sofisticadas, mas isso não significa que compreenda o contexto da mesma maneira que alguém que estudou profundamente um problema, acumulou experiência e precisou lidar com suas consequências.

É justamente aí que educação, experiência e pensamento crítico ganham ainda mais importância.

Quanto mais poderosa se torna a ferramenta, mais importante se torna nossa capacidade de avaliar a qualidade, os limites e as implicações daquilo que ela produz.

Os critérios utilizados para determinar o que é correto, adequado ou responsável não vêm da tecnologia por si só. Eles dependem do conhecimento, das experiências e do julgamento que desenvolvemos ao longo do tempo.

Pensar ou terceirizar o pensamento?

Isso nos leva a uma das questões mais importantes desta discussão: vamos utilizar a inteligência artificial para pensar melhor ou para pensar menos?

Talvez um dos maiores riscos da inteligência artificial não seja ela se tornar inteligente demais. Talvez seja aceitarmos exercer cada vez menos o nosso próprio pensamento crítico.

Neste novo contexto, será cada vez mais fácil perguntar a uma máquina:

Resolva este problema. Analise estes dados. Crie este código.

E muitas vezes ela fará isso muito bem.

A tentação será enorme. Afinal, por que dedicar horas ao estudo, à análise ou à resolução de um problema se uma máquina pode produzir uma resposta em poucos segundos?

Mas existe uma diferença fundamental entre utilizar a IA para ampliar nosso pensamento e utilizá-la para pensar por nós.

Um GPS pode ajudar alguém a chegar mais rapidamente a um destino. Mas, se muito usado, também pode fazer com que a pessoa perca, aos poucos, sua capacidade de orientação.

Talvez a inteligência artificial possa produzir algo semelhante em uma escala muito maior.

Podemos utilizá-la como uma espécie de novo e mais potente computador: uma ferramenta capaz de nos ajudar a explorar hipóteses, comparar alternativas e organizar informações.

Mas também podemos utilizá-la como um atalho para evitar aquilo que exige esforço.

Pensar exige esforço. Aprender exige tempo. E questionar exige conhecimento.

E é justamente por isso que formação, experiência e habilidades humanas continuam sendo tão importantes.

A educação se torna ainda mais importante

Por isso, talvez seja equivocado imaginar que a inteligência artificial diminuirá a importância da educação.

Na verdade, me parece justamente o contrário.

Se máquinas conseguem produzir respostas cada vez melhores, precisamos formar pessoas cada vez mais capazes de avaliá-las corretamente.

E aqui surge um ponto interessante:

quanto melhores se tornam as respostas produzidas pela inteligência artificial, mais importante se torna o conhecimento e a educação de quem precisa julgá-las.

Porque só conseguimos identificar uma premissa equivocada se conhecemos suficientemente o assunto.

Assim, a importância da educação recai sobre construir bons e sólidos fundamentos.
Ensinar matemática, física, programação, estatística, economia, ciência, história, filosofia e tantas outras áreas é muito importante. Porque agora, mais do que nunca, precisamos de pessoas com pensamento crítico.

Mas a formação não pode se limitar ao conhecimento teórico. Ela também depende da vivência prática, da experiência em sociedade e do desenvolvimento de valores essencialmente humanos, como ética, empatia, responsabilidade, respeito e capacidade de conviver com diferentes perspectivas.

É a combinação entre conhecimento, experiência e valores que forma o repertório intelectual e humano necessário para avaliar, questionar e utilizar aquilo que as máquinas produzem. A inteligência artificial pode oferecer respostas, mas cabe às pessoas compreender o contexto, julgar suas consequências e decidir como esse conhecimento deve ser aplicado.

Nesse sentido, o uso da inteligência artificial na educação não deve ser pensado apenas como uma forma de tornar o aprendizado mais rápido, mas como uma oportunidade de ampliar o conhecimento sem substituir o desenvolvimento da autonomia intelectual.

E talvez esta seja uma das principais missões da educação neste novo cenário: formar pessoas capazes de trabalhar com sistemas cada vez mais inteligentes sem abrir mão da própria autonomia intelectual.

O impacto da inteligência artificial na educação

O impacto da inteligência artificial na educação

Então voltamos à questão central deste texto: utilizaremos a inteligência artificial para ampliar nossa capacidade de pensar, ou para ser um substituto do nosso pensamento?

Essa resposta não virá da tecnologia em si, nem de modelos mais sofisticados, mas sim na forma como nós escolhemos utilizá-la.

Está em cada pequeno momento que questionamos uma resposta pronta, quando verificamos suas premissas, compreendemos os limites do pensamento da máquina e reconhecemos quando ela pode estar errada.

A inteligência artificial certamente mudará a forma como estudamos, trabalhamos e resolvemos problemas. O impacto da inteligência artificial na educação também será percebido na maneira como estudantes e profissionais desenvolvem conhecimento, avaliam informações e utilizam novas ferramentas para aprender e solucionar problemas.

Algumas atividades que hoje parecem complexas se tornarão triviais. E novas possibilidades surgirão justamente porque teremos ferramentas muito mais poderosas à nossa disposição.

Mas o que parece é que a grande questão da educação agora não seja mais ensinar pessoas a encontrar respostas.

Será ensiná-las a fazer boas perguntas, compreender profundamente os problemas e ter conhecimento suficiente para reconhecer quando uma resposta, humana ou artificial, está errada.

Porque, em uma sociedade na qual respostas serão cada vez mais abundantes, a capacidade de pensar com profundidade poderá se tornar uma das competências mais valiosas de todas.

Fechamos então com o que parece ser a grande oportunidade da educação na era da inteligência artificial:

A oportunidade não está em competir com máquinas que podem responder mais rápido do que humanos, mas sim formar pessoas que saibam pensar e avaliar a qualidade de tais respostas.


Professor Thales Sakamoto



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Renata Heining

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